domingo, julho 29, 2007

Sopa de letras

sinto ás vezes um desejo em escrever, ultrapassado inúmeras vezes e sem pudor pela impaciência. não um texto qualquer, mas o texto. aquele cujas palavras esperamos ser o elixir da verdade, aquele que embora egoísta na sua composição assuma um papel singular no contexto da vida.
não quero ser mais um prospecto de escritor, que procura na sopa de letras a unicidade. quero ganhá-la, merecê-la... e encontrar entre o vazio das palavras soltas a pauta "daquela" música que nos faz chorar de nostalgia, chorar de felicidade ou apenas chorar porque o sabor das lágrimas é salgado... aquele salgado agridoce, que nos diz que há vida até na escuridão.
sinto ás vezes um desejo de escrever... um desejo de por via das palavras mutar o meu âmago a uma qualquer forma heróica anti-depressiva.
sinto o desejo, espero sentir a consumação.

BellaMafia

quarta-feira, julho 25, 2007

Enfim

gostava tanto de ser... mas não sou.
gostava tanto de ter... mas não tenho.
gostava tanto e tão pouco.
talvez por isso seja humana.

BellaMafia

domingo, junho 24, 2007

Ala do Ser

viajei recentemente pelo corredor da doença, inúmeras luzes brancas iluminavam um caminho gasto pela presença constante. estranhos conduziam-me sem o frenesim dos "ERs" americanos, mas com uma calma inquietante, reflexa de um estar anestésico consequente da repetição.
os corredores sucediam-se, portas abriam-se e fechavam-se, pessoas acumulavam-se na sucessão de acções realizadas... experimentei o estar ébrio antes da injecção repousante. era tudo tão estranho.
estagnei junto a uma parede, quase abandonada... aqueles que eu determinara responsáveis por mim, conversavam descomplexadamente o mundano, sem indiciarem sentir a minha presença, pensei se sentiriam o mesmo pela minha maleita, mais uma de muitas... um número, nada mais.
por fim abandonei a minha parede branca, esperava por mim um leito metálico, impessoal... pensei como era estranho tantas pessoas passarem por ele sem macularem aquele objecto com a sua presença.
colocaram-me de costas, dois grandes óculos luminosos apontaram para mim, pessoas à minha volta abordavam-me sem que eu as entendesse... eu acenei sem compreender, acenei à vida, acenei até a clareza fugir e a escuridão se apossar de mim...

BellaMafia

quarta-feira, junho 20, 2007

Lacrima

são lágrimas e nada mais. caem com a gravidade, de caminho traçado, rumo à extinção.
é uma vida curta, associal... onde a fortuna denuncia-se no conúbio de um par na face do infortúnio.
são consequência da angústia, causa de empatia... e são agridoces, salgadas na sua forma e doces na expressão. amigas do olhar convidam o toque, a carícia a subtrair-lhes o significado sem pudor.
caem sem método ou ciência, apenas caem no vazio... no vazio do espaço, no vazio do esquecimento, a forma eloquente do humor líquido.

BellaMafia

terça-feira, junho 19, 2007

O desinteresse do interessante

já sei.
não precisam de pensar nisso.
é absolutamente desinteressante... óptimo, eu queria chegar exactamente ai! enquanto pensam, lá vem "esta" - sendo "esta" uma pessoa altamente interessante literariamente e de enorme índole cultural, cof-cof - com as suas pseudófilosofias de bancada parlamentar de terceiro anel, pregar o existencialismo e brincar ás bárbies com a etimologia, eu experimento o desinteresse do interessante, eu conquisto o interesse, porquê? ora, sem dúvida que este é um assunto de simpatia é a prática secular da contradição, o yin e o yang em consonância... e tudo no meu blog! e no entanto o contacto com este exaustivo brilhantismo diz-vos que é "dull", desinteressante, mais uma história da carochinha, em que a merda do João Ratão não se decide pela estúpida da gaja à janela!
bolas como isto é desinteressante - gritam as vossas mentes
nem sei porque estou a ler este logro - ah, mas lêem e até ao fim, porque de facto não interessa se é interessante o que interessa é que é desinteressante... tenho dito.

BellaMafia

segunda-feira, junho 04, 2007

Viagem

sigo no comboio, observo sem novidade o mesmo contexto de iguais percursos. as mesmas pessoas - faces diferentes - olham-me como para lado nenhum, aguardam o aquiescer maquinal que lhes permita viajar de corpo e mente rumo ao destino. e é enquanto observo o mundano, lugar comum, que urge o sentimento inexpugnável da criação, inicia-se uma dança lenta mas enebriante de palavras ao som de um virtual Sentimental Mood, de Cole Porter e Duke Ellington, solta-se o espirito literário.
entre a angustia do papel imaculado, sem vincos narrativos ou coitos poéticos, e a pressão do punho inquieto, liberta-se a semântica, rasurada ou profícua, liberta-se para encontrar nada mais que o ponto final, o ponto que lhe permite o regresso de um estado de alma, ausente do estar consciente.
por isso sigo no comboio e observo sem novidade... as mesmas pessoas, para lado nenhum e aguardo o soar desencarcerante... a liberdade.

BellaMafia

N'est ce pas la balle que tue mais le destinée*

olho para lado nenhum
espectante por te encontrar em algo.
procuro a redenção sem saber
que me foje sem rumo.
quero viver... não sei porquê.
a resposta soa-me infiel,
como a sombria vontade de morrer.

olho para lado nenhum
e encontro-te. és fria e indiferente.
chamas por mim confidente,
manifestação de mundo algum.
ouço chamarem-te morte...
hoje chamar-te-ei cura.

BellaMafia

*não é a bala que mata mas o destino (provérbio)

segunda-feira, maio 21, 2007

Benção das Fitas

procurei-te na multidão de sonhos,
aguardei um sinal teu...
talvez o teu olhar dissesse mais
que o sentimento cruel de benção nefasta,
autora de promessas ímpias e desgraça.
procurei nos teus gestos a utopia
que os meus gestos esqueçeram...
procurei a verdade da qual a mentira se apossou...
procurei a vontade que um dia partiu e não mais voltou.
ansiei entre cada lágrima nostálgica
a esperança de ver pelos teus olhos o mundo,
- sim, aquele que a depressão roubou -
mas apenas vi o vazio que a doença criou.

observo convalescente o teu sucesso,
só espero que a benção ilumine o teu percurso
e enfim... o meu regresso.

ps: dedicado à minha irmã, senhora de muitos títulos e agora mais um: Arquitecta.

BellaMafia

terça-feira, maio 15, 2007

Vestir o negro

visto-me de negro sem preconceitos.
visto a dor e o medo quais ornamentos
de uma vida sôfrega de preceitos.
adula-me escuridão, pertenço-te...

escrevo drama em folhas de paixão pura,
com letra mendiga e cadência oculta.
chamam-me viúva da certeza e da sorte:
- valha-me a escura e obséquia morte!

e porque visto o negro sem preconceitos,
veste fria e mórbida, o tédio... pertenço-te solidão.

BellaMafia

quarta-feira, maio 09, 2007

Procura-se

experimentei recentemente o sabor amargo da angústia... não uma angústia qualquer, mas aquela que nos leva ao desepero pela incapacidade de transformá-la em algo menos massacrante. a experiência transportou-me ao pretérito ano de 1992, passava na televisão o videoclip de Runaway Train, dos Soul Asylum, centrado no desaparecimento de várias crianças, por motivos vários...

...runaway train never going back
wrong way on a one way track,
seems like i should be getting somewhere
somehow i'm neither here nor there...

inúmeras faces, inúmeras histórias... e a consciência - assombrosa - do inconsolável sofrimento de todos aqueles por trás das imagens, os mesmos que imolam as suas próprias vidas, as suas almas por um retorno. um desespero sem igual. a perda...

...can you help me and remember how to smile?
make it somehow all seem worthwile,
how on earth did i get so jaded?
life's mistery seems so faded...

experimentei recentemente o sabor amargo da angústia... nela estava o rosto de Madeleine McCann, a inocência era perturbante e senti-me imunda só de olhar a figura etérea...

odeio-me por fazer parte deste mundo.

...i can go where no one else can go,
i know what no one else knows.
here i am just brownin' in the rain
with one ticket for a runaway train...

BellaMafia

sexta-feira, maio 04, 2007

Au Revoir

enfim sucumbo à inércia premente.
castrada da vida, pálida de face e pulso.
agitas-me, ansioso por uma resposta,
chamas coerência aos meus sentidos
já tão perdidos na incoerente rotina.

é um adeus, admite, tu sabes!
pouco resta de mim, senão a obscenidade
de uma vida de empirismo esquizofrénico.
um lugar parco de mim... muito pouco para ti.
é um adeus admite! não voltes... jamais.

BellaMafia

quarta-feira, abril 25, 2007

Empatia

detesto viver na empatia, aquele estar deturpado onde o problema dos outros parecem nossos... antes ser poeta e fingidor que ser escritor empático. o próprio nome parece padecer de uma doença crónica prima de crises de fígado... sinto a bílis crescer, sinto a vulnerabilidade apossar-se dos meus sentidos e deixar-me inerte ao sentimento orbital, eu detesto vulnerabilidade.
não me contem histórias, não me chamem aos tormentos, não me façam juíza da miséria, privem-me desse viver empírico, a vida é singular, não colectiva!

cinjo-me aos firmamentos da vida, não quero mais dela que ela de mim, vivemos em comunhão e vivemos bem, quanto à empatia... encontro-a ocasionalmente na esquina do mendigar.

BellaMafia

domingo, fevereiro 11, 2007

Tecnocracia

é cada vez mais frequente ouvirmos falar de tecnocracia. se olharmos com olhos de ver a sua presença é cada vez mais física e menos formal, o nosso concelho é representativo dessa cabala. o skyline de Cascais antes identificado pela baixa densidade de construção, presente nas casas de pescadores pontuadas pelas inevitáveis vilas fidalgas, encontra-se hoje descaracterizado pelo romper de um sem número de edifícios sem escala.
é difícil abstrair a mente das mãos tecnocratas, elas conspurcam a identidade - histórica e lendária - da vila... obrigam-nos a redescobrir os passos, que antes carimbávamos, com prazer, pelas ruas de Cascais, quais postais de nobre encanto.
são quase vãs as tentativas que procuram enebriar a mente ao descalabro, com golpes de cosmética reabilitando o reabilitado, e inaugurando o inaugurado, a verdade crua surge no imediato da vista, quase na vizinhança do camuflado.
de diáfano sobra-nos o mar, que em sintonia com o sentimento vai conquistando, galopante, a terra suja... sobra-nos o mar e pouco mais, para lembrar ao transeunte a veritas de uma uma vila sem os demais.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Cabeças de Peixe

descobri recentemente que afinal não somos uma nação de marinheiros, na realidade mal somos nação, mas adiante... afinal somos um país de cabeças de peixe.
a razão para a minha descoberta vai muito além da ciência, da filosofia e do livro da Carolina Salgado, encontrei a verdade à frente dos olhos... acreditem é possível! eu sei que existem alguns índividuos que apregoam que a visão é um sentido adúltero, mas com um comprimido de cepticismo ultrapassarão essa doença. agora porquê a cabeça de peixe e não o rabo de boi?
é uma questão pertinente, até porque são dois símbolos gastronómicos igualmente duvidosos e cuja imaginação poderá delegar o corpo à rejeição, subtraindo essa ideia a realidade remete-se aos direitos de autor, parece que o rabo de boi já foi adquirido para outro tipo de sopa, que não a de letras, lamentavelmente devo dizer, porque cús de corno também servia a muita gente nesta "nação" com declarada terceira visão.
basta de divagar! ora somos uns cabeças de peixe porque independentemente de sabermos, por experiência própria que vivemos entre paredes de merda servidas por ruas de merda, que ligam a cidades de merda, governadas por pessoas vestidas de castanho e com merda na cabeça (acho que acabei de inflaccionar o preço da merda, yuppiee!!) continuamos a olhar para o lado, a tapar o nariz - porque estranhamente cheira mal!? - e a assobiar umas músicas de florimerda para o ar merdoso... não tenho nada, mas tenho quase tudo. sou rica em sonhos e pobre, pobre em ouro... ora parabéns!
depois de observar este contingente encontrei um animal com um comportamento estranhamente semelhante, o peixe. o peixe come, come, come, come e volta a comer até rebentar, porque a cabecinha é demasiado pequena para processar o acto de ingestão de uma alimento... hum! que familiar, não parece? pois não somos nós que comemos, comemos, comemos, comemos com impostos, hipocrisias, incompetências, indigências e outros vocábulos da família dos in-... e continuamos sub-repticiamente a pedir mais. ora e não me falem em descontentamento porque quem cala consente e eu vejo uma "nação" estranhamente calada!
alem! elevem o pensamento caros peixes, sejam Carpas, Sardinhas ou Esturjão tipo Beluga... há mais na vida do que comer!

Bellamafia

segunda-feira, novembro 27, 2006

voyeur assim...

ao vê-la adormecida, inerte nos sentidos,
recordei contos lidos de uma esquecida infância,
senti um aperto no peito, pela ignorância
de ver passar o tempo por meios indevidos.

é ao vê-la prostrada ao sono da idade
que me urge a saudade de a ver senhora das horas.
e perguntam-me, os que me veêm: "porque choras?"
- a luz do dia esvai-se sem demoras.
resto eu e a nostalgia, memórias de mocidade...

foi numa longa tarde soalheira, em tons de rosa-carmim,
que descobri este triste fado em mim.

BellaMafia

quinta-feira, novembro 23, 2006

Alguns póssamos e tanhamos hádem ser mais grandes que muitas outras coisas

é cada vez mais habitual encontrarmos novas formas de apresentação do léxico português. a criatividade lusitana, ao que parece, não se esgota na procura de artifícios para contornar leis ou parceiros, encontra sempre novos desafios... (nem vou questionar a validade dos mesmos. para quê?)pois deparou-se a língua portuguesa com um registo incomensurável de novos adeptos extremamente criativos e, porque não dizê-lo, sinistros. o objectivo - depreendo - será a transformação progressiva da nossa língua em mais um fantástico recorde do Guiness Book of Records, a marca a almejar é de língua mais complexa do mundo. o timing é perfeito, enquanto os russos se preocupam com a Tchetchénia e a Ucrânia, os chineses com a sua crescente economia e a gripe das aves, outros com assuntos mundanos como as armas nucleares, o efeito estufa, as energias renováveis, o aumento do petróleo... nós sub-repticiamente lá vamos conquistando o nosso lugar de incompreensíveis (literalmente).ora vejamos alguns casos:

póssamos: com origem no verbo poder, teve como base a sua derivação "possamos". como justificar a alteração? ao que parece a conjugação original era algo insípida, com falta de ritmo... os nosso caros conterrâneos, numa atitude quase minimal, adicionaram-lhe um acento transformando a palavra numa perfeita exdrúxula... fantástica intervenção, uma arte!alguns numa atitude considerada exacerbada, quiseram ainda resumi-la a uma formação simples: póssa-mos, sem dúvida alegórica mas ainda com parcos fundamentos para existir.
outros verbos estão a conciliar esta nova frente criativa e a aderir ás novas e alegóricas, conjugações.

hádem: esta derivação é sem dúvida a coroa de glória dos novos vocábulos, com base no verbo haver e na sua derivação "hão-de", várias foram as discussões entre as mais altas instâncias, no que concerne à língua portuguesa, e determinou-se a atribuição de uma conotação mais intelectual do que um mero latir de cão (hão) ao verbo. a pesquisa levou-nos à mitologia grega nomeadamente ao deus grego do inferno, Hades... um verbo com uma base histórica é uma raridade, logo, foi de comum acordo que se estabeleceu que esta nova conjugação traria não só suspiros de intelectualidade a um povo caracterizado pela sua incongruência, como seria uma obra dedicada à antiguidade. Hadém, "vai buscar!"

mais grande: este é um caso muito simples de minimalismo e facilidade de ensino, ora se já existe um adjectivo "grande", inclusive proveniente do latim grande, para quê estar a criar uma palavra para caracterizar algo de tamanho superior em relação ao que já é grande? esta questão levantada pelos novos senhores da nossa língua tem imensa propriedade. defende alguma nata da sociedade que "maior" por também ter bases no latim (maiore) é um adjectivo de valor equivalente ao grande, mas os novos "fidalgos-linguísticos" contrapõem que seria mais apropriado seguirmos uma linha germânica e atribuirmos mais sílabas ás palavras, i.e maisgrande ou mais-grande ao invés da simplicidade bacoca do "maior"; estas serão evoluções previsíveis do léxico português que por enquanto se mantém dividido entre o maior e mais grande.

após esta breve nota sobre os laivos criativos da nova génese portuguesa, espero ter contribuído para uma melhor relação com uma língua cada vez mais complexa na forma e na comprrehensione.

BellaMafia

terça-feira, novembro 14, 2006

Faz-me viajante e eu faço-te caminho

viva!, algo perdido e desencontrado de tão só e sóbrio. a sua respiração tímida, entrecortada por delinquentes perfumes de maresia, transportam-me, juíza, à compaixão pela santa pobreza, digna por auto-flagelo, da hipotética porta de entrada à terra de Santa Maria de Belém.
passam cacilheiros, transeuntes, gentes de bulício, por aquela estação de isolamento... sinto-me constrangida de tão só que se me apresenta a dignatária! quase tão obsoleta quanto o regime que a fez nascer.
cruzam-se comigo sobre a pressão da clepsidra laboral, sem despeito pela arquitectura, peões da Trafaria ou Porto Brandão. quem sabe ela seja tão indiferente de concludente, que nada representa, nada consubstancia?
rejeito a ideia de que tal arquitectura seja apenas a obra "apoética" de um combinado estatal; não foi também a Estação Fluvial de Alcântara vítima de um processo, em vaga, de melhoramentos das condições de trânsito?, conta ,no entanto, a mesma com o apadrinhar generoso de Almada Negreiros. porque não vivo eu a presença de alguém?, porque será esta estação tão fria?
promovo na minha mente a equação que levara o pretérito Arqº Frederico Cardoso de Carvalho, assim como ao confrade Engº Duarte Pacheco - senhorial ministro das obras públicas - a executar uma obra tão pouco pública. por que razão intenções tão camuflatárias teriam sido adoptadas num círculo de património tão concerne à nossa grandeza lusitana?
sento-me enquanto me distraio na congeminação dos factos... aquele telhado de duas águas, aquela pseudo-torre de ambições a faroleiras, à qual o tempo roubou o fardo; aquelas janelas de enclausura que absorvem a alma de tanto sufocarem a presença. retraio-me com um novo plot, talvez a ideia de tão célere projecto - como foi o habitar da costa com monumentos fluviais - se manifestasse pela experiência negativa do transeunte antes da viagem epopeica à realidade adjacente.

os cacilheiros passam, assim como as pessoas e o tempo, uns de destino a Lisboa, outras a menos ambicionadas viagens, nenhuma com este destino.

desisto da ideia de me transformar amorfa para agradar à condição da estação em estudo, liberto-me temporariamente da posição expectante e procuro a origem das sombras que tornavam o meu objecto tão na pas de quoi. à direita encontro o Museu da Electricidade, antiga central tejo, em tempos o locci mais iluminado de Olisipo, hoje um imponente edifício cuja erosão tem vencido com o brio da elegância britânica.
à esquerda avisto ao longe, quase que em horizonte de memória, o Padrão dos Descobrimentos, uma imagem irreal naquele displante de vazio arquitectónico. volto a questionar a razão da estação. começo a caminhar deixando em rasto segundos de afastamento daquele elemento fluvial tão dúbio, sinto-me envolvida pelas árvores, pela sombra que elas respiram, a batalha interior que me conduzia fugia-me em espiral... uma amnésia abençoada liberta-me da repressão ideológica e compreendo finalmente a origem daquela criação, a sua razão, o seu esquecimento em presença e vivência... eram as árvores, as árvores do olvidar, elas transformavam o espaço, elas cortavam os laços, a simbiose... escondiam o objecto da conjuntura urbana.
regressei num impulso à Estação Fluvial, ela ali estava, de fundo soava abafado, pelo som daquelas árvores quebrantes, o comboio, chamando passageiros em sofreguidão. eu associei no imediato aquela voz à condição da estação marítima... aquela rectidão, aquele desprezo pela agradabilidade, constrangeu-me. de repente apetecia-me mudá-la, pegar nos volumes funcionais e "afuncioná-los", construir uma barreira de criatividade e destruir a doutrina da opressão - a palavra ditadura assolou demasiadas vezes a minha mente. era isso que ela representava, uma súbdita de um idealismo ultrapassado e industrializado e eu não podia fazer nada, a sua existência seria sempre aquela monotonia apaisanada, sem momentos.
desisti. aquele objecto de estudo não era o meu objecto, era o objecto de ninguém. e foi assim que o deixei, no crepúsculo, enquanto me cruzava com os passageiros, os transeuntes...

in Estação Fluvial de Belém
BellaMafia
(escrito em 2000, arranjado em 2006)

quarta-feira, novembro 08, 2006

Submissão

à coisa de uma semana... celebrou-se - provavelmente apenas entre os lobos maus do islamismo - o segundo aniversário da morte de Theo Van Gogh, que, se bem se recordam, foi assassinado por um manifesto aborto humano, de convicções religiosas distorcidas. lembro agora a curta-metragem "submissão" que, ao que tudo indica o terá submetido ao desígnio da morte. mas mais importante que isso lembra hoje o mesmo que "ontem", que vivemos num mundo subvertido por homens mascarados, cujo os ideais remetem a mulher a um papel de adorno e por conseguinte superflúo, descartável, inútil... ok! paro por aqui.



aproveito o contexto para assinalar a magnífica celebração da festa "cartooniana" em Teerão, onde se elegeram os melhores cartoons alusivos à descriminação judaica e ao flagelo "encenado" do holocausto... ora viva a dualidade de critérios! viva a liberdade de expressão.

BellaMafia

quinta-feira, outubro 12, 2006

Perfect Sense, part I and II


The monkey sat on a pile of stones
And stared at the broken bone in his hand
And the stains of a Viennese quartet
Rang out across the land
The monkey looked up at the stars
And thought to himself
Memory is a stranger
History is for fools
And he cleaned his hands
In a pool of holy writing
Turned his back on the garden
And set out for the nearest town
Hold on hold on soldier
When you add it all up
The tears and the marrowbone
There's an ounce of gold
And an ounce of pride in each ledger
And the Germans killed the Jews
And the Jews killed the Arabs
And the Arabs killed the hostages
And that is the news
And is it any wonder
That the monkey's confused
He said Mama Mama
The President's a fool
Why do I have to keep reading
These technical manuals
And the joint chiefs of staff
And the brokers on Wall Street said
Don't make us laugh
You're a smart kid
Time is linear
Memory is a stranger
History is for fools
Man is a tool in the hands
Of the great God Almighty
And they gave him command
Of a nuclear submarine
And sent him back in search of
The Garden of Eden

(Can't you see it all makes perfect sense expressed in dollars and cents pounds shillings and pence...)

Roger Waters in Amused to Death


Ouçam, de preferência a versão live do album In the Flesh... fantástico.

BellaMafia

terça-feira, outubro 10, 2006

A Assimetria Mundial


... e assim acaba o sonho: adeus à pobreza, à fome, ao abandono, ao stress, à riqueza, à felicidade, ao trabalho, à responsabilidade, ao desejo, ao amor, à devoção, ao vício, ao romance, à poesia, à arquitectura, à arte, ao singular, ao plural, ao conceito, ao nome, à verdade e à mentira, adeus ao mundo e tudo mais...
ashes to ashes, dust to dust

BellaMafia